top of page
Dr. Bruno Fonseca, ortopedista de joelho. CRM 171141 RQE 73519.

Cirurgia de Ligamento Cruzado Anterior (LCA): quando operar, como é feita e recuperação

  • Dr. Bruno Fonseca
  • 19 de jul.
  • 6 min de leitura

Atualizado: há 51 minutos

O joelho girou, estalou, inchou em poucas horas. A ressonância confirmou: ligamento cruzado anterior roto. E veio a frase que quase todo mundo ouve — "vai ter que operar".

Vai? Talvez. Mas essa não é a resposta automática que muita gente recebe, e a diferença entre operar por indicação e operar por hábito é grande.

O que os ensaios randomizados realmente mostram

Existe um estudo que muda toda a conversa e que é pouco citado em português: o ensaio KANON, publicado no New England Journal of Medicine.

Adultos jovens com ruptura aguda do LCA foram sorteados entre duas estratégias: reconstrução precoce mais reabilitação, ou reabilitação primeiro, com cirurgia depois só se necessário.

Aos 2 anos, a diferença entre os grupos no escore KOOS4 foi de 0,2 ponto (referência). Aos 5 anos, 2,0 pontos. Aos 11 anos, 1,6 ponto (referência). Nenhuma dessas diferenças é clinicamente relevante.

E o dado que mais importa para quem está decidindo: no grupo que começou só com reabilitação, 39% acabaram operando em 2 anos, 51% em 5 anos e 52% em 11 anos.

Leia esses dois números juntos: metade das pessoas que começam pela fisioterapia acaba operando mesmo assim; e a outra metade não opera, chegando aos 11 anos com o mesmo resultado de quem operou logo. Começar pela reabilitação não queima a ponte.

Quando a cirurgia é claramente melhor

Isso não vale para todo mundo. O ensaio ACL SNNAP, no Reino Unido, estudou uma população diferente: pacientes com LCA roto não agudo, já com instabilidade sintomática persistente — o joelho falseando no dia a dia. Aí a cirurgia venceu, com 7,9 pontos de vantagem no KOOS4 aos 18 meses (referência01424-6)).

A regra que eu tiro disso: o critério não é a imagem, é o joelho falseando. LCA roto que não dá instabilidade funcional pode ser acompanhado. LCA roto que faz o joelho ceder ao girar precisa de cirurgia.

Os fatores que puxam para operar

  • Esporte de pivô — futebol, basquete, vôlei, handebol, artes marciais, tênis

  • Instabilidade no dia a dia — o joelho falseia ao descer escada, ao virar na calçada, ao carregar peso

  • Lesão de menisco associada que precisa de sutura — o joelho precisa estar estável para a sutura cicatrizar

  • Trabalho de demanda física que exige o joelho estável

  • Idade jovem com alta demanda de atividade

E os que puxam para esperar: baixa demanda funcional, ausência de instabilidade no dia a dia, comorbidade que aumente o risco cirúrgico, ou um momento de vida em que a reabilitação faz mais sentido que a cirurgia.

A conta que ninguém faz — proteger o menisco

Aqui existe um argumento real contra postergar indefinidamente. Atraso maior que 3 meses até a reconstrução se associou a mais lesão do menisco medial, e a análise por ressonância dentro do próprio ensaio KANON encontrou o mesmo sinal. O menisco lateral não mostrou esse efeito em nenhuma das fontes.

Por que isso importa tanto? Porque o menisco é o que mais decide a artrose lá na frente. Em pacientes acompanhados por mais de 10 anos após reconstrução, a artrose apareceu em 50,4% de quem perdeu menisco contra 16,4% de quem não perdeu (referência).

Traduzindo: adiar de forma monitorada é diferente de adiar por abandono. Se optar por não operar agora, você precisa de acompanhamento — porque um joelho instável que continua falseando vai cobrando o menisco a cada episódio. Se você tem sintomas de menisco, veja como reconhecer os sinais e quando a cirurgia de menisco entra na conversa.

A cirurgia previne artrose? Não

Essa é a promessa mais comum e menos sustentada. Uma revisão sistemática de estudos com pelo menos 10 anos de acompanhamento encontrou artrose pós-traumática em 37,9% dos operados e 40,5% dos não operados (referência). Praticamente igual. E o KANON, aos 11 anos, encontrou mais dano estrutural incidente no grupo operado precocemente, não menos.

Isso não é motivo para não operar. É motivo para operar pela razão certa. A reconstrução do LCA devolve estabilidade — e estabilidade é o que permite esporte de pivô e protege o menisco. Ela não é um seguro contra artrose. Se quiser entender o que decide a indicação na artrose já instalada, escrevi sobre quando operar a artrose do joelho.

Uma nota de linguagem que faz diferença: "artrose no raio-X" e "artrose que dói e limita" não são a mesma coisa. Em dados de registro, artrose clinicamente diagnosticada após reconstrução apareceu em 13,6% aos 10 anos — bem abaixo dos 40% radiográficos.

Qual enxerto — e por que essa conversa tem dois lados

O ligamento não é costurado. Ele é substituído por um enxerto retirado do próprio paciente: tendões flexores, tendão patelar ou tendão quadricipital.

O que os registros mostram. Bancos de dados nacionais com dezenas de milhares de pacientes consistentemente favorecem o tendão patelar quanto a re-ruptura. No registro norueguês, flexores tiveram risco de revisão cerca de duas vezes maior.

O que as metanálises de ensaios mostram. A diferença absoluta é pequena: 2,80% contra 2,84% de ruptura, e o número necessário para tratar é de 235 pacientes para evitar uma re-ruptura (referência).

O que é consistente. A morbidade do local doador: dor anterior no joelho e dificuldade para ajoelhar são significativamente menores com flexores e com quadricipital do que com tendão patelar.

Não existe enxerto universalmente melhor. Existe o enxerto certo para o seu esporte, sua profissão e o que incomoda mais você — e essa conversa é feita antes da cirurgia, com você participando.

O número que todo atleta jovem precisa ouvir

Se você tem menos de 25 anos e pretende voltar ao esporte de pivô, o dado honesto não é "4% de re-ruptura". Uma metanálise encontrou que, entre pacientes com menos de 25 anos que retornam ao esporte, cerca de 23% sofrem uma segunda lesão do LCA — no enxerto ou no joelho do outro lado (referência). Praticamente um em cada quatro.

E existe um fator que você controla: o tempo até voltar. Uma coorte prospectiva mostrou que cada mês de adiamento até os 9 meses reduziu a taxa de nova lesão em 51%, sem ganho adicional depois disso (referência). Outra coorte independente encontrou risco cerca de 7 vezes maior em quem voltou antes de 9 meses.

Sobre retorno ao esporte: cerca de 81% voltam a algum esporte, 65% ao nível anterior e 55% ao nível competitivo. O que mais separa quem volta de quem não volta não é a força medida no aparelho — é a confiança. Medo de nova lesão é o motivo mais citado por quem não retorna.

Reforço anterolateral — para quem faz sentido

Em pacientes jovens com frouxidão importante e esporte de pivô, pode ser associada uma tenodese extra-articular lateral. O ensaio STABILITY, com 618 pacientes de 14 a 25 anos, mostrou redução de falha clínica de 40% para 25%, e de ruptura do enxerto de 11% para 4% em 2 anos (referência).

As ressalvas, que também precisam ser ditas: o grupo com reforço teve mais dor nos primeiros 3 a 6 meses, o estudo usou exclusivamente enxerto de flexores, e a população era muito selecionada. Não é para todo mundo — é para o perfil de maior risco.

Como é feita a cirurgia

A reconstrução é feita por via artroscópica, com o enxerto passado por túneis ósseos no fêmur e na tíbia e fixado nas duas pontas. Lesões associadas de menisco e de cartilagem são tratadas no mesmo tempo cirúrgico.

Perguntas frequentes

Rompi o LCA. Tenho que operar obrigatoriamente?

Não obrigatoriamente. O critério não é a imagem, é a função: se o joelho falseia no dia a dia ou se você pratica esporte de pivô, a cirurgia costuma ser indicada. Se não há instabilidade funcional e a demanda é baixa, é razoável começar pela reabilitação.

Se eu começar com fisioterapia e depois operar, o resultado é pior?

Não. É esse o achado central do ensaio KANON: quem fez reabilitação primeiro e operou depois chegou aos 11 anos com o mesmo resultado de quem operou logo.

Quanto tempo até voltar a jogar?

Nove meses é o marco com melhor evidência. Voltar antes disso multiplica o risco de nova lesão — em uma coorte, por cerca de 7 vezes. E o critério final não é só o calendário: é força, controle e confiança.

Qual a chance de romper de novo?

Depende da idade e do esporte. Em atletas com menos de 25 anos que voltam ao esporte, cerca de 23% têm uma segunda lesão do LCA, contando o enxerto e o joelho contralateral. Em pacientes mais velhos e de menor demanda, o risco é bem menor.

A cirurgia evita artrose no futuro?

Não. Estudos de longo prazo mostram taxas semelhantes de artrose em operados e não operados. O que mais protege é preservar o menisco.

Preciso operar com urgência?

Não é urgência. Mas também não é indiferente: adiar muito, com o joelho falseando, associa-se a mais lesão do menisco medial. Se a decisão for esperar, que seja com acompanhamento.

Leia também

Onde é o atendimento

Avenida Paulista, 2064 — 21º andar (Shopping Center 3), Bela Vista, São Paulo. Agendamento pelo WhatsApp (11) 94395-9991, às quintas-feiras das 10h30 às 13h. Leve a ressonância — é ela que mostra o que mais existe além do ligamento.

Conteúdo informativo; não substitui a consulta médica. Dr. Bruno Paulo Marques da Fonseca — CRM-SP 171141 | RQE 73519.

 
 
 

Posts recentes

Ver tudo

Comentários


bottom of page